Artigo – Uma noite no ballet: entre a arte e a vida

A noite de 17 de abril de 2026 ficará marcada não apenas pela beleza técnica da dança, mas pela imprevisibilidade da vida. O palco do Teatro Guaíra em Curitiba, recebia a encenação do ballet Giselle, um espetáculo magnífico, protagonizada pelo corpo de baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Sob a liderança da primeira bailarina Juliana Valadão e com a ilustre presença de Ana Botafogo — o maior ícone da dança clássica brasileira —, o espetáculo revelava-se fascinante.

A apresentação foi deslumbrante. Juliana Valadão interpretou Giselle com extrema graça, suavidade e domínio técnico, sendo calorosamente aplaudida em diversos momentos, ao lado do impecável corpo de baile. Juntos, encantaram mais de duas mil pessoas que lotavam o teatro.

Assim se encerrou o primeiro ato, para deleite de todos os presentes. Após um breve intervalo para a mudança de cenário, teve início o segundo ato, mantendo o nível de beleza e encantamento do primeiro. Eu estava acomodado na poltrona número 6 da fila J. À minha direita, havia duas poltronas vazias e, em seguida, uma senhora acompanhada de sua jovem filha.

Subitamente, cerca de dez minutos após o início do segundo ato, o silêncio da plateia foi subitamente rompido por um grito lancinante, ecoando próximo a mim: — Socorro! Acudam! Minha mãe está morrendo! Voltei-me imediatamente e vi a jovem, em desespero, tentando reanimar sua mãe, que se encontrava inerte e cianótica. Desespero geral.

Como médico, prontamente — em questão de segundos — dirigi-me até elas. Com o auxílio de outra espectadora, deitamos a senhora no chão. Naquele espaço exíguo entre as poltronas, após uma avaliação rápida, constatei ausência de pulso e de batimentos cardíacos. Iniciei imediatamente manobras de reanimação cardiopulmonar e estímulos gerais

Diante dos gritos e da comoção geral, um alvoroço tomou conta do recinto; o espetáculo foi interrompido e as atenções de todo o público voltaram-se para o local do ocorrido. Os bailarinos, em gesto de respeito, retiraram-se para as coxias.

Pouco depois, alguém trouxe um estetoscópio e um esfigmomanômetro, permitindo-me auscultar melhor o coração e aferir a pressão arterial da paciente, que, naquele momento — após as manobras de reanimação e o auxílio de outros voluntários — já se apresentava próxima da normalidade.

Também foi disponibilizado um oxímetro, que indicou níveis adequados de saturação de oxigênio. Com a recuperação da consciência e mais orientada, providenciou-se uma cadeira de rodas para removê-la do interior do teatro, onde aguardaria a chegada da ambulância, prontamente acionada.

Acompanhei-a por alguns instantes no exterior do teatro, até que a ambulância chegou e a conduziu a um hospital. Não tive acesso a informações como seu nome, idade, seu histórico médico ou diagnóstico definitivo. É possível que tenha se tratado de uma síndrome vasovagal, talvez agravada pelo ambiente fechado e pela grande aglomeração.

Seja qual for a causa, o mais importante é que ela deixou o teatro com vida, beneficiada com o primeiro e rápido atendimento, em direção a um serviço médico que, certamente, lhe prestou a devida assistência.

Ao retornar à minha poltrona, vivi um dos momentos mais emocionantes e marcantes de minha vida, quando a voz da locutora anunciou ao microfone: “- Uma salva de palmas para o médico que atendeu esta senhora”.  E então veio o aplauso. Mas não era o mesmo aplauso de antes. Não era para a técnica, nem para a estética, nem para a perfeição. Era para algo mais essencial. Era para a vida que ressurgia. Fui reverenciado por dois mil espectadores. Jamais havia experimentado uma homenagem daquela magnitude. Acomodei-me novamente em minha poltrona, com a serena certeza do dever cumprido e pensando como é linda e maravilhosa a arte proporcionada pelos exímios bailarinos, mas a arte de curar, este dom que Deus nos deu, não tem preço nem comparação.

O espetáculo, enfim, pôde continuar…